magnotico on-line entertainment

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Este blog nunca se irá encontrar escrito ao abrigo do (des)Acordo Ortográfico de 1990!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Poema CX - Ode à decadência

A noite começa cedo
Para quem janta ao despachar,
Para evitar sentir o medo
De que não vai por certo apanhar,
O comboio que parte da estação
Às horas marcadas, em direcção
À boémia capital da loucura
Onde o dia é noite escura
E o sol nasce tardiamente.

A passeata pelo Chiado
E o café numa qualquer esplanada,
Alimentam o habituado
Jovem que não pensa em nada,
Senão na diversão
Que poderá encontrar,
Ou talvez não,
Numa pista a dançar
Já de cérebro dormente.

De rompante dá o salto
E sai correndo rua acima,
Até atracar no Bairro Alto
Que embeleza a colina
Mais nocturna de Lisboa.
Onde a freira cruza a puta,
A bicha com a loira boa,
Tal salada de fruta
Servida num cinzeiro.

O estômago fervilha!
Eu sei. Eu sinto!
O fígado, reduzido a ervilha,
Mistura-se com o absinto
Tomado num balcão,
Onde a proeza decadente
Toma a todos atenção
E faz o barman contente
Por ver seu tanto dinheiro!

Entre shots e long drinks
Lá as horas vão passando
Até tudo estar nos trinques
Para ir aos saltos andando
Até à porta da discoteca
Onde te diz um macacão
“Ou pagas ou neca!”
Mas tu queres é diversão
E até entras nessa!

Vais dançando todo contente
Entre vodkas e cervejas.
Entorpeças em toda a gente
Enquanto a bebida gargarejas
Numa loucura desvairada
De quem só tem um neurónio
Na cabeça alcoolizada
De quem se apelida Pussidónio
Quando no B.I. é Vanessa!

A noite quase termina
E tu não arranjas queca!
Mal tratas a puta fina
Que te roubou a boneca
Que passaste a noite a mirar.
O mais doloroso segue-se então
Na rua, sentado, a vomitar
O... jantar! É empadão!
OK! Enjoei...

Acabas a dormir sozinho
Na cama que teus pais deram
Com tal ressaca, coitadinho,
Pelas malfeitas que te fizeram.
A tua língua sente-la esférica,
A tua barriga nem sei, não!
E tanto acontece à lésbica,
À puta ou ao machão!
E até mesmo ao gay!

Bruno Torrão
05 Set.’04



Este poema vem, sem dúvida, marcar vincadamente o auge da minha vida boémia.
Era social. Ia a festas de pessoas que mal conhecia. Embebedava-me no Bairro Alto. Tomava drogas leves sempre que havia droga! Não precisava de motivo. Só de quem me enrolasse o charrito!
Porém, num dos momentos de pura lucidez, se vez alguma essa existiu, quis escrever (talvez até nem seja descrever) tudo o que pensei que todos nós - aqueles que ao fim de contas me acompanhavam - daquelas andanças acabávamos por procurar e achar, ou não achar! Assim era a decadência.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Especial: Na hora do chá IX

Quem tem seguido o Sob Signo das Letras, reparou que este ano, a 18 de Janeiro, comemorou-se o 25º aniversário sobre a morte de um dos meus poetas predilectos. Falo, como alguns saberão, de Ary dos Santos!

Tendo em conta a minha deslocação à sede da Sociedade Portuguesa de Autores para registar mais uns quantos poemas, fui hoje ao site da referida associação por motivos burocráticos e deparei-me com algo que me seduziu.

Fiquei sabendo, assim, que está patente no edifício da Rua Gonçalves Crespo, na Galeria Carlos Paredes, uma exposição sobre a vida e obra desse génio das letras da segunda metade do século XX, Ary, que se prolongará até finais de Agosto.

Por certo lá irei dar uma visita, obviamente!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Poema CIX - Café dos Teatros

Abóbadas vermelhas te sustentam
Entre portas altas envidraçadas
Suportadas por mármores degraus,
Por onde leve se dão passadas.
Almas boas. Corpos maus.
Tudo te passa. Todos te lamentam.

Das mesas quadradas e pretas,
Que com pretos e modernos assentos
Se sentam os corpos, maus e estranhos,
Onde eu escrevo os meus tormentos
E neles me envolvo. Neles me entranho,
Com um simples trocar de canetas.

Melhor que sítios longínquos, mares ou matos,
Onde a inspiração não finda,
Fico melhor, sem dúvida alguma,
A estas tardias horas, ainda,
Passadas das doze (confesso, quase uma)
Sentado numa mesa do Café dos Teatros!

Bruno Torrão
30 Ago.’04












As abóbodas e as cadeiras do antigo Café dos Teatros



Muito eu gostava daquele espaço. Uma calma pouco usual tomava-lhe conta todos os dias. O ambiente, talvez... Esse sim provocava-me aquela sensação mistificante de "poetisar". E ainda cheguei a escrever naquelas mesas uns quantos!
Tenho saudades desses tempos e do espaço em si. :(

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Poema CVIII - Sem corpo

Estou farto de ser quem sou!
Farto de quem me rodeia e ilude...
Farto da vida. Se é vida quem apelidou,
Morto está... É fóssil ou já crude.

Cruel vida que se afasta
Da morte certa e infeliz.
Como se fosse a má madrasta
Castigando a princesa petiz.

Estou farto de ser quem fui!
Alguém que viu sombras numa gruta
Imaginando um mundo ideal,
Quando lá fora a vida é puta!

É a morte certa que se aproxima!
É a decadência que tarda a partir...
E vou estando... simplesmente lamentando,
“Morte que não chegas, faz-me sorrir!”.

Bruno Torrão
30 Ago.’04

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Poema CVII - Quotidiano

Acordei
Despertei
Caminhei
E corri
E caí
Não chorei
Levantei-me
E sacudi-me
Regressei
E desinfectei
A ferida
Estanquei
O sangue
Que sujou
A roupa
E não a lavei
Regressei
Sem correr
Não caí
E voltei
Ensandeci
Enlouqueci
Chorei
Adormeci
E não sonhei.
Já sonhei
Não acordei
Morri.

Bruno Torrão
27 Jul.'04



E com este poema se inicia o meu quarto livro, Magnotico - Livro Segundo.
De facto, este não é, nem de longe, um dos meus poemas preferidos. Muito longe mesmo! Porém, não deixou de ser uma experiência e, enquanto experimentação, é um ganho. Uma alternativa aos caminhos que sempre percorremos. Uma ligeira fuga à rotina, que tanto me marcou na construção deste livro que, a partir de hoje, vos apresento!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Poema CVI - Falo

Quem me dera, ó minh’alma,
Que eu só não soubesse falar.
Só tu sabes, minha alma,
O quanto me custa chorar
Por falar o que não devo...

Talvez por não falar o que devia,
Quando o obrigatório era falar,
Me sinto assim, alma triste e sombria,
Desamparado no mundo, sem lugar,
Apenas este lugar, onde me sento e escrevo.

Bruno Torrão
20 Jul.'04



Este é o último poema do meu terceiro livro - Magnotico - Livro Primeiro - que poderão consultar por completo clicando no link e, como se prevê, antecede a abertura do quarto, com um nome semelhante, o qual vos disponibilizarei ainda no decorrer desta semana.
Até lá, bons versos!

terça-feira, 28 de abril de 2009

Especial: Na hora do chá VIII

Hoje, ao aceder à minha conta de e-mail, deparei-me com uma mensagem (admito) muito fora do vulgar.

Um e-mail proveniente do Portal Lisboa referia-se a ter acompanhado o meu blog e, segundo citam "gostariamos de lhe dar os parabéns pelo serviço cultural que tem prestado à poesia e à literatura". Confesso que me senti lisonjeadíssimo mas, como quando a esmola é muita o pobre franze o sobrolho, segui atentamente o texto, pelo que vos disponho aqui ipsis verbis do que se segue no dito e-mail:

"Depois do sucesso que foi a Primeira Colectânea de Poesia Contemporânea do Portal Lisboa e da Chiado Editora (www.chiadoeditora.com), com o nome “Entre o Sono e o Sonho”, vamos agora arrancar com o II. Volume da mesma colectânea, pelo que gostariamos de o convidar a noticiar este evento no seu blog".
Até então não achei malfeita alguma e, pelo contrário, até me surgiu a ideia de começar a anunciar acções semelhantes como concurso literários, cursos de escrita criativa, etc.

Continuando com o e-mail; "Neste momento, estamos à procura de novos autores para entrarem neste livro, pelo que o convidamos a visitar o regulamento desta colectânea no nosso site". E aqui sim, após visitar o dito link, surge o meu espanto.
A ter conhecimento, o parágrafo 2. do regulamento insurgiu-me alguma revolta, se é que será esta a melhor palavra para descrever o sentimento; "2. Forma de participação
Compra de 5 exemplares da obra ao preço de 12 euros por exemplar, por cada poema que desejar incluir na antologia...".

Certo que não se trata de nenhum concurso, mas sim de uma participação, leva-me no entanto a comparar, por exemplo, com um convite para uma festa, onde se é convidado mas para a qual se pede que comparticipe com o catering! Ora, se somos convidados, qual a finalidade de termos de ser nós a ter de entrar com a comidinha? Imaginemos que eu até decidia participar na dita Antologia, a qual se preveja ser uma imagem para a posterioridade do género artístico e criativo duma época e/ou sociedade, com apenas 5 poemas meus (cerca de 2% da minha Obra) teria de gastar 300 eur, o que equivale a mais de metade dos meus rendimentos mensais.

Ainda assim, confesso que não são tão "chupistas" como as editoras que se propõem a editar o trabalho de um novo autor!

Deixo, no entanto, a solicitada publicidade (sem custos!) à proferida acção.

Devo, isso sim, vangloriar um facto. Das receitas adquiridas, os direitos de autor que terão, no caso, uma parcelagem de 20% sob os 15 eur, serão doados a uma instituição de cariz social, ou seja, 3 eur por livro vendido ficando os restantes 12 eur (pagos para a inscrição) para bom proveito da editora. :)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Poema CV - Sardinheiras na varanda

Batem-se ao vento no Outono,
Que à noite me atrasa o sono.
Na Primavera se inundam de cor,
Para alegrar a minha dor.

Observam as gentes passar,
Pelas calçadas a falar,
Das vidas felizes que ostentam...
Das alegrias que noutros despertam.

E as sardinheiras da minha varanda
Ouvem falar tamanha propaganda,
Trazendo a mim a alegria,
Orgulhoso de as possuir todo o dia.

Bruno Torrão
08 Jul.’04



Este poema surgiu graças a uma conversa no meu já extinto fotolog. Falava-se de sardinheiras. Falava-se de varandas. Peguei na minha máquina digital de então e fotografei as sardinheiras da minha varanda. E escrevi este poema.

domingo, 26 de abril de 2009

Poema CIV - Eu e Ela

A vida ontem estava aqui.
Aproveitei, e com ela tomei chá.
Cochicho ali, cochicho aqui,
A tarde estava bela e já não está.

A vida partiu para longe daqui.
Aproveitei, e sozinho tomei café.
Lágrima aqui, lágrima acoli,
A vida era bela, e agora já não é.

A vida? Não sei quem é!
Estou só... Nem a vida conheço!
Choro deitado, sorrio em pé,
A vida tem aquilo que não mereço...

Bruno Torrão
30 Jun.'04

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Poema CXIII - Orgulha-te

É o desejo de apagar a vida.
Pegar no comando e rebobinar.
Comprar uma borracha rija e comprida
E simplesmente apagar.

É o desejo de iniciar
Aquilo que devia já ter sido.
É a vontade de mudar
Aquilo que tem persistido

E que não se apaga com sopros,
Como se de velas se tratasse.
É o separar de dois corpos
Como que neles se entrelaçasse

A euforia de poder modificar
O que se acha que está mal.
Mas agora paras. Ficas a olhar.
E na merda continua Portugal!

Bruno Torrão
20 Jun.'04