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Este blog nunca se irá encontrar escrito ao abrigo do (des)Acordo Ortográfico de 1990!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Poema CXL - As Pessoas

Confundem-me as pessoas! Tanto, tanto!
Lançam-me em medo, devaneio e pranto...
Por isso delas me escondo e tanto fujo,
Para qualquer lugar, deslugar, mundo sujo...

Invento sítios. Descubro lugares indescobertos.
Alcanço estrelas, planetas, universos abertos,
Para me infiltrar e delas me esconder. Quero!
Quero ser sozinho no meu mundo que impero...

Mas elas não me deixam só...
Elas não me deixam só.
Mas elas não me deixam só!
Elas não me deixam só...

Bruno Torrão
20 Fev. 05



Com este poema iniciei o meu quinto livro, terceiro e último da série Magnotico onde, em algumas composições - quiçá na sua maioria - se denota a fase anti-social e de auto-estima retráctil, com referências aos ambientes negros que já se haviam lido nas compilações Expiração e em composições pontuais de Letrodependência.
Este poema foi ainda musicado por Tiago Videira, não se encontrando, no entanto, à disposição do público.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Poema CXXXIX - Pele

Estende-me a pele sobre ti
Como xaile negro desvanecido,
Pele seca e mal tratada,
Como lágrima enxugada,
Caída em teu vestido

De pele, de corpo... Poros e pêlos.
Estendi-me sobre nós
Sobre a cama desfeita,
Nossa veneração eleita,
Em tons de uma só voz

Gritante e jubilar!
Cobri-me de mim, só,
Envolto em flanelas.
Cerraram-se as janelas.
Pelos ácaros me fiz pó.

Lançaste-me ao quarto vento
E à aragem pré-matinal.
Refrescas-me os sentidos,
Apuras-me os lânguidos...
E a pele sabe-me tão mal...

Bruno Torrão
13 Mai.'05



E assim, em pele termino o meu quarto livro, Magnotico - Livro Segundo que poderão, porventura, seguir na íntegra através deste link!
Resta, agora, aguardar pela publicação do próximo. Só aqui! Só no Signo das letras!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Poema CXXXVIII - Açucenas

Tardes amenas, de Primavera!
Tardes de açucenas, quem me dera
Que tão serenas em mim fossem,
Tão calmas em mim que fossem,
Tais amenas e doces tardes
Nas quais apenas ainda ardes
Em minha vista já cega
De um coração que não sossega!

Ó mente apaixonada! A minha!
Talvez machucada... Coitadinha!
Não faço por ti minha coitada.
Mente sem rumo, desnorteada,
Amargas em sumo de limonada!
És tão doce, açucarada...
Mas não te sustentas em nada!
E na minha cega vista, molhada,

Permaneces invicta! Intocável!
Como voz de anjos, inolvidável,
Dos tempos em que passámos
Abraçados ao mundo... Sonhámos!
Tanto que sonhámos, amor!
Tanto que sonhámos... Amor!
Lembro agora esses momentos,
Mergulhado em longos tormentos,

E encharco em mim a saudade!
Ó triste e dolorosa maldade
Que o tempo não quis apagar!
Inocente dor a atacar
A alma, o corpo, a mente...
Tudo à volta anda dormente
Por me esquecer das tardes amenas.
Primaveras tardes de açucenas.


Bruno Torrão
07 Abr. 05

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Poema CXXXVII - Brinca, Alegria!

Brinca nesta rua, Alegria,
Enquanto to permite a idade!
Pois daqui a uns anos, mais tarde,
Não mais brincarás, Alegria...

Brinca agora, pequena Alegria,
Como brinca qualquer criança
Brotando dos olhos esperança,
Fantasia, emoção e alegria...

Só agora podes brincar, Alegria,
Aproveita agora tamanha virtude!
Pois com o crescer tanto se ilude
E na vida só se perde é alegria...

Bruno Torrão
19 Fev.'05



Este foi, como podem verificar pelos tag, mais um poema no qual utilizei a táctica Three Words Poetry.
Ainda hoje me espanto, comigo, como tive tamanha agilidade nesses tempos em fazê-lo... E hoje nem tampouca agilidade tenho - quase - sequer, para escrever...!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Poema CXXXVI - Abraçado à morte

Quem sabe ao chegares, um dia,
Em vez de me veres abraçado a mim,
Abraçando a morte com alegria,
Me encontrarás no mesmo sítio, por fim.

Talvez sem esperares, um dia,
Estarei deitado no leito eterno,
A morte abraçando-me, como eu queria,
Apenas a sete palmos do inferno.

Talvez realize tais desejos, um dia,
Como jamais consegui realizar maiores.
Abraçar a morte. Tanto que queria...
Mas jamais por morrer de desamores.

Bruno Torrão
13 Fev.'05



Engraçado! Por pouco não colocava o poema no seu quinto aniversário.
Por este modo vejo em como mudei tanto nestes cinco anos volvidos, neste tema e nesta temática. quer na vida, quer na escrita. Ainda que muito do que escrevo - ou escrevi (por vezes já não sei como me designar neste ponto ou situação) - tenha muito-bastante-ou-quase-tudo daquilo que sou, presencio e vivo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Poema CXXXV - Saudade

Estranho é o sentimento. Complexo.
Não sabe ninguém mais defini-lo...
Torna-me tão confuso. Perplexo!
Longe de o largar. Fácil é consegui-lo.

Longe de tudo o que viva... da vida,
Atrofia os eternos pensadores...
Faz pensar em cada batalha vencida.
Agilmente refresca memórias de dores...

Estranho é o sentimento. Complicado.
Alcança todos, em qualquer idade.
Faz parte de nós. É o nosso fado,
Aquele que nos alaga. E é saudade...

Bruno Torrão
12 Fev. 05



Como já não aqui vinha há quase um mês, decidi aparecer. Não que goste do poema... mas continuo a postá-los por ordem.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Poema CXXXIV - Tonto

A cabeça batuca... matuta.
Pensa. Tanto ela pensa.
Tem preso o peso de uma prensa.
É estranha derrotada de uma luta.

Dá mil voltas no seu lugar.
Roda e gira como nada...
Não chega ao fim de cansada,
Mas cansa-se de tanto pensar.

Prende-me a visão ao além,
Onde jamais cabeça estivera...
Não se lembra ela de Primavera
Florida, como quando se ama alguém.

Anda tonto o meu pensamento.
Doente da vida. Depressivo.
Por isso da vida me esquivo.
Por isso da vida me atormento.

Bruno Torrão
11 Fev. 05

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Poema CXXXIII - Fuga

Corre-me o rio por toda a face!
Rolam-me as pedras no pensamento!
Procuro, em vão, algo que disfarce
O que tenho cá dentro. Este tormento!

A fuga torna-se uma necessidade!
A vontade de sair sem ter norte,
Sem rumo escolhido. Só a vontade
De seguir o destino, à mercê da sorte!

Criar uma cruzada da liberdade,
Levada em extremo significado!
Não ter barreiras, nem saudade,
Nem vontade de voltar ao iniciado.

Perder-me em montes e caminhos.
Achar-me longe. Não mais me achar!
Perder de vista todos os caminhos
Para não mais saber como voltar...

Bruno Torrão
07 Fev.’05

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Poema CXXXII - Velozes

Farto-me de fumar. Estou estranho...
Nunca vi, de tão grande tamanho,
Pensamentos correrem dentro de mim.
Parece-me uma auto-estrada sem ter fim,
Por onde carros alcançam tamanha velocidade.

Não lhes intercepto o caminho. São velozes!
Tenho medo? Não sei... parecem soltar vozes
Que encalham o meu agir. A solução...
Não percebo qual a meta! Para onde vão?
Tão rápidos, porquê? Qual a ansiedade?

Parecem-me ter perdido a simplicidade
Numa qualquer curva de má visibilidade.
Não parecem sequer ter qualquer destino...
Mas correm para algum lugar que não defino
Nos meus estranhos sentidos de percepção!

Correm como loucos! E não param, nem abrandam!
Tomara que algo os fizesse parar onde andam,
Para os poder observar. Para lhes poder perguntar;
“Porque existem em mim? Porquê tanto desgastar?
Saberão, talvez, que me gastam também! Ou não?”

Mas não param! Não abrandam. Só seguem
Em tais correrias que, suponho, não entendem
Também eles, a causa. Mas esgotam-me o pensamento!
Nada concluo. A destino nenhum chego, em padecimento,
Por nenhuma resposta obter. Só peço, agora, então...

Parem... Parem de correr!

Bruno Torrão
07 Fev.’05



Quando na cabeça as questões parecem ganhar tamanhos assustadores enquanto circulam pelas nossas auto-estradas cognitivas sem lei de velocidade... Sai isto. Saíu isto.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Poema CXXXI - Àqueles (o grito da liberdade!)

Gente estranha... Tanta gente!
Gente cinzenta num mundo de loucos,
São eles tantos ou tão poucos,
Os que sentem o sentir que a gente sente!

Tristeza guardada em coração dormente!
Têm conversas escondidas do mundo...
São desvairados. Também pensam fundo,
E sentem o sentir que a gente sente!

E é essa gente de tão acanhada mente,
Que nos ignora com tamanho desdém,
Que sabem que sentimos nós também,
E sentem o sentir que a gente sente!

Mas eles insistem em me tomar por diferente,
Porque amo o semelhante, e eles não!
No amor deles não comanda só o coração,
Mas sentem o sentir que a gente sente!

Por isso eu assumo à estranha gente,
Que sei ser como sou, e não como querem!
Que não é por me repudiarem que me ferem,
Aqueles que sentem o sentir que a gente sente!

Bruno Torrão
06 Fev.’05




Este foi, sem dúvida, um dos meus mais bem aclamados poemas até à época em que foi escrito. O simples rasgar de raiva que tentei demonstrar - muito calmamente como é tão próprio do meu ser! - fez-me enaltecer perante aclamadas palavras vindas de muita gente!
Perdi a vergonha de me assumir e de esconder aquilo que realmente me faz sentir bem e ser (a maioria das vezes) feliz. Assumi que sei amar quem realmente amo, e não preciso que seja institucional ou que esteja na Constituição a dizer que o posso fazer.

Amo porque amo.
Gosto porque gosto!
... E se não posso mandar nos sentimentos dos outros, por favor, livrem-se de mandar nos meus!