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Este blog nunca se irá encontrar escrito ao abrigo do (des)Acordo Ortográfico de 1990!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Poema CCXIII - Porta de entrada

Querias seguir-me p’las margens dum rio
No qual nossos corpos eu consumo
Querias e quero manter-me por um fio
de prumo
E seguimos cansados e mais percorridos
Nos nossos caminhos que dispersam
Pedindo às forças de universos perdidos
Que o teçam!

Agora já sabes o quanto é duro
Correr por estradas sem sentido
Agora já sabes que o medo do escuro
é sabido!
E agora já sabes o quanto eu luto
Nas teias das malhas que não teço
Agora sabes que o que dá fruto
não meço!

E assim nós ficámos à beira do mundo
E assim nós ficamos sem saída
Que a porta de entrada
Que deixámos no fundo
foi perdida!
Que a porta que abrimos
foi esquecida!

Bruno Torrão

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Poema CCXII - Da Ideia

A ideia é longa e confusa
E entrelaça-se nas linhas que, por estranho,
Não parecem existir sequer
Senão na ideia que é obtusa
E agudiza o pensamento que retenho
Na cabeça cansada de se bater.

A ideia é nada senão misturas
De cada sentido que em cada um habita
Cocktail de imaginação pequenina
Como claras batidas às escuras!
São coloridas como a mente frita
Em azeite e óleos de serotonina!

Bruno Torrão

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Poema CCXI - Rasgo

Nas mãos prendo agora apenas a vontade
De querer seguir além do teu corpo quase vago,
Quase nulo. Vazio até, quem o enuncie!
Nas estranhas formas a que os sons deram verdade,
Oponho apenas o sentido lato (enquanto mago)
Das palavras que solto a quem aprecie!

A dura realidade de já não fazer sentido
Naquilo que outrora quisera que fosse maior-arte,
Cravo somente espinhos que reparti por cada hora
Já passada. Assim esquecidas. Tempo caído!
Que o tempo que quis ainda, então já morto, à parte
Daquilo que disse e escrevi noites afora,

Dele só restam saudades. Saudades apenas!
E mais a vontade e o cognome que, como faziam antes
Aos reis que nos governavam insanamente,
Prego nas asas das aves em vão, já sem penas,
Que como tal rasgam os chãos em vôos rasantes,
Tal como rasgo eu o meu corpo com o poder da mente.

Bruno Torrão
07 Abr.’09

domingo, 11 de dezembro de 2011

Poema CCX - Em testamento

Se é desta que trago o mundo
Em peso nos braços fracos
Que desde sempre sustento,
Tragam-me num só segundo
De todos os pratos os cacos
Unidos em sangue e unguento

Deste mundo que suporto
Nestes fracos e débeis braços.
Tragam vermelhos machados
E rosas púrpuras - que sou morto -
E preencham com eles os espaços
Dos poros no meu corpo dilatados!

Aí acomodem cada pétala desfiada
E c’os espinhos façam uma coroa!
Aleitem-me num lençol de flanela
- para ajudar na digestão da bicharada -
E não! Não me sepultem em Lisboa!
Sou demasiadamente único para caber nela!

Larguem os restos de mim ao ar...
Lancem-me em cinzas no oceano profundo
Para alimentar os peixes que habitam nele,
Ou que me deixem apenas no fundo do mar
Porque é desta que eu quebro o mundo
E passo a viver no centro dele!

Bruno Torrão
05 Abr. 09

domingo, 30 de outubro de 2011

Poema CCIX - Vinho

Volta a beber deste vinho que
Trouxe perdido de outras bocas.
Vinha já esquecido doutros recantos
Da minha boca.

Bebe em tragos fortes e profundos!
Trago-os também fortes e também profundos!
E também te estrago com o vinho...

Com este vinho que mandei pisar
Quando ainda mal adivinhava o seu sabor.
O seu paladar a frutos secos
E amargos como as amêndoas
Que vejo nos teus olhos doces.

Entrego-te num copo de vidro
Ainda baço e marcado com linhas
Dos outros vinhos.
E ainda marcas doutros tantos lábios
Onde despejei outros tanto litros
Doutros tantos vinhos e deste, também.

Os paladares confundem-se!
Mas não os vinhos.

Bruno Torrão
05 Out. 08

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Poema CCVIII - Sobre os dedos

Desfiz na nossa cama os lençóis
E com eles emaranhei os dedos
Até sentir doer e estalar as unhas.
Nos nós do cabelo que constróis
Com estes meus fracos dedos
Senti cruzar a força que neles punhas

O pulsar do sangue. O pulsar apenas!
Nos dedos que agarraste apertando
Cada vez que os teus dedos tremiam,
Senti tremer meu corpo como as penas
Que tremem num vendaval coçando
O capim dos campos que se infirmam

Ao passar a praga de muitos insectos!
Sentir passar-te o vendaval nos dedos;
Baixinho. Quase que insensível, parece!
Quase rente ao corpo que dos afectos
Que fizeste cruzar com os teus dedos
Estremece, e por esses dedos padece.

Nos meus dedos restam apenas os nós
Que emaranham, apenas, ainda os lençóis
Da cama que era nossa e quis desfazer.
Largo agora os dedos pelos próprios nós
Que agarram com a força dos lençóis
O corpo deitado, carente, ainda a padecer.

Bruno Torrão
13 Abr. 08

domingo, 9 de outubro de 2011

Poema CCVII - Retrato do pianista

A testa franzida. Os dedos vincados
Correm em estrada branca encardida.
Nas notas soltas saltam palavreados
Desgostosos de amor que lhe trouxe a vida.

O olhar vago e os dedos vincados
Nas teclas vazias como na alma fria,
O pianista chora sorrisos mal esboçados
No amargo sabor da sua melodia.

E o pé que não cansa, e os dedos vincados
Pedalam na esperança de ver agradados
Os tons que lhe apagam a má postura.

E os dedos! Os dedos ainda vincados
Saltam nas pedras duras da própria cabeça...
E uma música acaba sempre que outra começa!

Bruno Torrão
21 Dez. 07

sábado, 10 de setembro de 2011

Poema CCVI - Na mesa cama

Fumo nas noites o luar azedo
E o brilho das estrelas opaco e baço.
Encharco os pulmões de odor a medo
E grito no vácuo sentido em que abraço

As brasas num chão incandescente
E, no ar, as cinzas em pó asfixiante.
Já vejo o mundo arder lentamente
Por dentro duma bolha flutuante.

E à mesa exponho o corpo aberto.
Estilhaçada em cacos a minha mente!
Pego no vazio ao meu redor e aperto
Contra o nada que aqui se sente

E na minha cama aqui se sentam
As armas que ergo das batalhas falidas.
Só mesmo elas agora se contentam
Por me ver sangrar nas minhas feridas.

Assim me adormeço sob lençóis de pregos
Que cumprem em regra a lei da gravidade.
Dos sentidos me restam os olhos cegos
Cujas lágrimas tomaram em insanidade!

Bruno Torrão
09 Dez. 07

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Poema CCV - Chicote

Chicoteio numa cidade-noite dolentes versos
De sangue negro e amargo a vinho.
A alma trôpega soluça a pé-coxinho
Nas pedras calcário dos passeios dispersos.

Nas luzes amarelas que me mijam os ossos
Prego pregos de platina em corrosão.
Sangram-lhe os neutrões em faísca ao chão
Onde estendo as palmas e os destroços

Dos edifícios que não soube cimentar.
Nas escuras ruas – que são já avenidas! –
Escrevo por traços contínuos as medidas
Do meu corpo espalmado a lacerar.

Bruno Torrão
26 Set. 07

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Poema CCIV - Fumo

Fumo sem querer parar. Jamais o quis.
Na garganta o fumo asfixia-me a voz
E as palavras presas ao que se diz
Sob a forte névoa do fumo atroz.

Vejo opaco e negro o fundo do meu ser
E na garganta vermelho que brota
Em sangue de raiva, de ira a escorrer,
E no peito d’ânsias já se debota

Pelo corpo uma cor que desconheço.
Se apenas o fumo é o que mereço,
Que deixe jamais, então, eu de fumar!

E se ao menos o meu fumo respeito
– Que me consome da garganta ao peito –
Seja o resto do meu corpo p’ra fumar!

Bruno Torrão
14 Set. 07