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Este blog nunca se irá encontrar escrito ao abrigo do (des)Acordo Ortográfico de 1990!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Poema CCXVII - Junco

Junco

Não temo que deixe por agora
Ou até por tempo infinito,
Indeterminado ou imprevisível,
Que cresça por terras a-fora
O junco verde, viçoso, bonito,
Que me oculte a casa já invisível.

Nem que nele apareça bicharada,
Desde roedores, moluscos, insectos,
De borboletas a caracóis ou ratos.
Que se criem todos! Que façam ninhada
Gatos vadios imunes a afectos,
Com fome e sem outros tratos,

Que a casa que habito e no junco se esconde,
A vida que a enche se maltrata,
Chicoteia, a si própria se viola,
E vagueia desnorteada por cada quarto onde
P’las janelas em que o junco se acata,
Com as próprias unhas se degola!

Bruno Torrão

quinta-feira, 22 de março de 2012

Poema CCXVI - Albatroz

Na ampla praça cheia de olhares
Como quem estreia à luz a visão
Servem-se croquetes, rissóis, calamares
E aclama-se justiça cega em vão;

No centro ergue-se por quatro andares
Uma estaca esguia mal presa ao chão
Que se balança p’las correntes d’ares
Criadas pelas palavras da minha oração!

Assisto como nunca ao grotesco ocaso
Embebido em óleo alimentar de girassol
Para não me alimentar o colesterol

Enquanto que de baixo me embraso
Entre labaredas ruivas flamejantes
Prontas a assar-me os pedantes.

Aos poucos me caem em pedaços
Dedos, pés, tornozelos, canelas
E a todos os que enchem os paços
Dão de almoço p’ra encher as moelas.

Ficam ainda dispostos, nas mesas enfeitadas,
Os croquetes, rissóis e os calamares,
Trocados pelas rótulas tostadas
Caídas como maná dos ares.

E assim me vou assando lentamente
Como quem tem pena perpétua a cumprir,
Mais saboroso que a carne presente
Disposta sem custo a consumir.

E assim me disponho aos lobos ferozes
Famintos por carne fresca e rica,
Enquanto que serve aos albatrozes
Todo o resto que por ali fica.

Bruno Torrão

quinta-feira, 8 de março de 2012

Poema CCXV - A revolta das maçãs

Rolam maçãs em fogo colina abaixo
Em reboliço fulgurante e d’aroma a caramelo
Pega cada uma num quente facho
E ardem-se entre todas pelo cabelo

Queimam campos e quintas e palhais
E secam as águas de cada poço ou fonte
E violam mulheres e homens e animais
E deixam tudo negro pelo horizonte

E rolam as maçãs colina acima
Repondo em chamas o que ainda arde
Numa festa de dióxido que as anima
Enquanto cai na terra morta a tarde!

Bruno Torrão

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Poema CCXIV - Mesa 21

Deixa que seja eu a pôr hoje a mesa!
Os pratos design que comprei quadrados
À medida da mesa que pomos em festas…
Deixa que seja eu a pôr os copos turquesa
Que brilham íris à luz dos raios lançados
E que vidram pelas janelas e arestas
E pelas frestas destas janelas de madeira!

Deixa só que seja eu a pôr a toalha de linho
Que comprámos conjuntos em Marrocos
Quando decidimos viajar pelo mundo islão
E nos esquecemos, no deserto, do caminho!
Deixa só usar os talheres que, com dúzia de trocos,
Mandámos seguir numa encomenda da televisão!
São bonitos e nunca os usámos à maneira!

Deixa-me só pôr a mesa a meu gosto…
Só hoje porque estou sozinho para a refeição!
Mesmo que a ponha trocada e guardanapos de papel,
Há-de ser, ainda que em modo contraposto,
A mesa que permite esfaquear-me o coração
E regar em molho de sangue toda a minha pele,
Por ter sempre de jantar numa mesa com uma só cadeira!

Bruno Torrão
28 Jun.10

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Poema CCXIII - Porta de entrada

Querias seguir-me p’las margens dum rio
No qual nossos corpos eu consumo
Querias e quero manter-me por um fio
de prumo
E seguimos cansados e mais percorridos
Nos nossos caminhos que dispersam
Pedindo às forças de universos perdidos
Que o teçam!

Agora já sabes o quanto é duro
Correr por estradas sem sentido
Agora já sabes que o medo do escuro
é sabido!
E agora já sabes o quanto eu luto
Nas teias das malhas que não teço
Agora sabes que o que dá fruto
não meço!

E assim nós ficámos à beira do mundo
E assim nós ficamos sem saída
Que a porta de entrada
Que deixámos no fundo
foi perdida!
Que a porta que abrimos
foi esquecida!

Bruno Torrão

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Poema CCXII - Da Ideia

A ideia é longa e confusa
E entrelaça-se nas linhas que, por estranho,
Não parecem existir sequer
Senão na ideia que é obtusa
E agudiza o pensamento que retenho
Na cabeça cansada de se bater.

A ideia é nada senão misturas
De cada sentido que em cada um habita
Cocktail de imaginação pequenina
Como claras batidas às escuras!
São coloridas como a mente frita
Em azeite e óleos de serotonina!

Bruno Torrão

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Poema CCXI - Rasgo

Nas mãos prendo agora apenas a vontade
De querer seguir além do teu corpo quase vago,
Quase nulo. Vazio até, quem o enuncie!
Nas estranhas formas a que os sons deram verdade,
Oponho apenas o sentido lato (enquanto mago)
Das palavras que solto a quem aprecie!

A dura realidade de já não fazer sentido
Naquilo que outrora quisera que fosse maior-arte,
Cravo somente espinhos que reparti por cada hora
Já passada. Assim esquecidas. Tempo caído!
Que o tempo que quis ainda, então já morto, à parte
Daquilo que disse e escrevi noites afora,

Dele só restam saudades. Saudades apenas!
E mais a vontade e o cognome que, como faziam antes
Aos reis que nos governavam insanamente,
Prego nas asas das aves em vão, já sem penas,
Que como tal rasgam os chãos em vôos rasantes,
Tal como rasgo eu o meu corpo com o poder da mente.

Bruno Torrão
07 Abr.’09

domingo, 11 de dezembro de 2011

Poema CCX - Em testamento

Se é desta que trago o mundo
Em peso nos braços fracos
Que desde sempre sustento,
Tragam-me num só segundo
De todos os pratos os cacos
Unidos em sangue e unguento

Deste mundo que suporto
Nestes fracos e débeis braços.
Tragam vermelhos machados
E rosas púrpuras - que sou morto -
E preencham com eles os espaços
Dos poros no meu corpo dilatados!

Aí acomodem cada pétala desfiada
E c’os espinhos façam uma coroa!
Aleitem-me num lençol de flanela
- para ajudar na digestão da bicharada -
E não! Não me sepultem em Lisboa!
Sou demasiadamente único para caber nela!

Larguem os restos de mim ao ar...
Lancem-me em cinzas no oceano profundo
Para alimentar os peixes que habitam nele,
Ou que me deixem apenas no fundo do mar
Porque é desta que eu quebro o mundo
E passo a viver no centro dele!

Bruno Torrão
05 Abr. 09

domingo, 30 de outubro de 2011

Poema CCIX - Vinho

Volta a beber deste vinho que
Trouxe perdido de outras bocas.
Vinha já esquecido doutros recantos
Da minha boca.

Bebe em tragos fortes e profundos!
Trago-os também fortes e também profundos!
E também te estrago com o vinho...

Com este vinho que mandei pisar
Quando ainda mal adivinhava o seu sabor.
O seu paladar a frutos secos
E amargos como as amêndoas
Que vejo nos teus olhos doces.

Entrego-te num copo de vidro
Ainda baço e marcado com linhas
Dos outros vinhos.
E ainda marcas doutros tantos lábios
Onde despejei outros tanto litros
Doutros tantos vinhos e deste, também.

Os paladares confundem-se!
Mas não os vinhos.

Bruno Torrão
05 Out. 08

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Poema CCVIII - Sobre os dedos

Desfiz na nossa cama os lençóis
E com eles emaranhei os dedos
Até sentir doer e estalar as unhas.
Nos nós do cabelo que constróis
Com estes meus fracos dedos
Senti cruzar a força que neles punhas

O pulsar do sangue. O pulsar apenas!
Nos dedos que agarraste apertando
Cada vez que os teus dedos tremiam,
Senti tremer meu corpo como as penas
Que tremem num vendaval coçando
O capim dos campos que se infirmam

Ao passar a praga de muitos insectos!
Sentir passar-te o vendaval nos dedos;
Baixinho. Quase que insensível, parece!
Quase rente ao corpo que dos afectos
Que fizeste cruzar com os teus dedos
Estremece, e por esses dedos padece.

Nos meus dedos restam apenas os nós
Que emaranham, apenas, ainda os lençóis
Da cama que era nossa e quis desfazer.
Largo agora os dedos pelos próprios nós
Que agarram com a força dos lençóis
O corpo deitado, carente, ainda a padecer.

Bruno Torrão
13 Abr. 08