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Este blog nunca se irá encontrar escrito ao abrigo do (des)Acordo Ortográfico de 1990!

sábado, 6 de junho de 2015

Poema Viajantes III - Balada para a partida

Balada para a partida

E desta forma me deixo desfazer
Num baço nevoeiro, denso,
Num longo aceno, num adeus
Que permanece ainda, sem esquecer
Cada toque, o beijo suspenso
E os meus dentes batendo os teus.

A partida é breve e dolente
Lenta e quase corrosiva.
Desfaço o peito de repente
Rasgado com a força depressiva

Que em mim cresce no momento!
Ardo vagarosamente num lume bravo
Consumido por crepitações carmim…
Se não me regresso, ou tento,
E se p’la saudade torno escravo,
Jamais me encontrarei em mim!

Bruno Torrão

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Poema Viajantes II - Tema para um malmequer defolhado

Tema para um malmequer desfolhado

Há sob o céu desta cidade
Um lume brando ainda em chama
Em fumo ocre lança saudade
E no meu corpo tudo se inflama
Dos pés às mãos sou claridade
No peito ardo como quem ama
Trago na vista a imensidade
E o sentimento de quem se engana
Ardo pela vida em liberdade
Que te quer bem
E a mim também.

Somos dois olhos de criança
Sem cor à vista pela manhã
Da transparência que aqui dança
Somos da cor duma romã
Aberta ao sol vermelho-cansa
Unidos numa ideia vã
“Quem une é o tempo e a esperança
“A quem tratámos por irmã”
Somos um malmequer que aqui balança
Que me quer bem
E a ti também.

Bruno Torrão

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Viajantes - Vídeo Promocional



Para quem ainda não conhece, este foi o vídeo de promoção para angariação de fundos em crowdfunding para o lançamento do livro, onde são apresentadas todas as razões para que o projecto fosse apoiado!

Surgiu um vídeo super apelativo, até mesmo em termos mais técnicos, e bem recebido entre os críticos da área!
O livro, como sabem, continua à venda no site da Livros de Ontem.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Poema Viajantes I - Proteína

Proteína

Há em cada noite um corvo que morre comigo
Enquanto que com o bico esfarripa
Todo o meu ventre em torno do umbigo
E deglute de modo prazeroso a minha tripa

E em cada noite que passa ele sacia
A fome voraz do meu ventre-proteína
E seguidamente morre indigesto quando o dia
Avança abrupto e corrompe a cortina

E em cada amanhecer choro e lamento
Por alimentar demais o pobre corvo
E até ao cair da noite me atormento
E nessa densa noite me absorvo.

Bruno Torrão

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Durante o mês de Junho vou apresentando alguns poemas presentes no livro Viajantes e, sempre que possível, apresentando algumas novidades que possam vir a surgir sobre o mesmo! Fiquem atentos, pois ainda podemos via a ter um Natal antecipado!

Não esqueçam, ainda, que o livro encontra-se em venda, na segunda edição (aumentada) através do site da editora Livros de Ontem! Basta clicar no link! ;)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Re(re)entrée

Depois de mais de 2 anos passados, decidi voltar a pegar no Sob o Signo das Letras.

Muito se tem passado desde a última actualização, em 2012, dentro do mundo da minha poesia, que foram desde a participação em colectâneas, em sessões de declamação e, inclusivé, o lançamento de um livro.

Com o passar de todo este tempo tenho-me dedicado a re-organizar os poemas, pelo que trarei algumas novidades em breve!

Por hoje, fiquem com a informação sobre o Viajantes, o livro que editei com outro grande poeta e amigo de longa data, Daniel Costa-Lourenço e que conta com belíssimas imagens da Marta Cruz!

Livros de Ontem ©
Viajantes - Livros de Ontem©
O livro já vai na sua segunda edição (revista e aumentada) e encontra-se disponível para compra no site da editora Livros de Ontem.
É um livro que combina letras e imagens com inspiração na capital de Portugal. Recantos que são redescobertos em cada página e que nos fazem recolher à intimidade que existe entre cada um dos autores com a cidade de Lisboa.

O livro foi um sucesso de vendas, tendo chegado à 2ª edição em menos de dois meses, algo que já se previa graças à adesão ao crowdfunding que tornou o livro fisicamente possível!

Para além disso, a partir de hoje será possível receber novidades do Sob o Signo das Letras através do twitter, basta seguir @signodasletras e começar a ter todas as novidades no momento em que ainda estão fresquinhas, tal como se tem mantido no facebook!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Poema CCXXVI - Varanda


Espreita duma varanda, assomada,
Como quem espera o carteiro chegar
A horas tardias para jantar, coitada,
A minha esperança farta de esperar.

Aguarda encostada, vergada sobre a varanda
De olhos postos na estrada e na calçada,
Sem pestanejar a vista, que já anda,
Obviamente, de chorar cansada!

Assomada, vergada, cansada, volta p’ra casa,
Entristecida e já sem qualquer esperança.
Desesperada se deita no chão da casa
Que habita sozinha desde criança.

E assim se permanece no chão, estendida,
Presa ao soalho como uma pesada prensa.
O desespero deixou-a para sempre rendida
À solidão em que a esperança se condensa.

Bruno Torrão

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Poema CCXXV - Sob proposta (um soneto proposto)


Nem bem aurora, nem mesmo sol-posto,
Não sou definido pela luz, sequer!
Se bem me defino num grato encosto,
Melhor definho por um posto qualquer,

Melhor desafio se não é suposto,
O que não é esperado, nem previsto.
Se bem sou vinho, jamais serei mosto,
Impossível até ser disso um misto!

Assim sangro a calçada em puro prazer
E mais tarde a lambo em pleno desgosto
Que o que faço mais tarde é de prever

Que o faço antes de me ser proposto!
E à força humana não mostro sequer
Que tudo o que faço, faço por gosto!

Bruno Torrão

sábado, 28 de julho de 2012

Poema CCXXIV - Proteína

Há em cada noite um corvo que morre comigo
Enquanto que com o bico esfarripa
Todo o meu ventre em torno do umbigo
E deglute de modo prazeroso a minha tripa

E em cada noite que passa ele sacia
A fome voraz do meu ventre-proteína
E seguidamente morre indigesto quando o dia
Avança abrupto e corrompe a cortina

E em cada amanhecer choro e lamento
Por alimentar demais o pobre corvo
E até ao cair da noite me atormento
E nessa densa noite me absorvo.

Bruno Torrão
08 Mar. 11

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Poema CCXXIII - Pro-bono do bicho

Por escassos segundos cerro os olhos,
Caindo sobre mim um sono leve,
Onde, embalado por uma rede de molhos
De espinhos unidos p’la melancolia, teve
lugar um sonho, que creio, ainda inacabado.

Consumia-me um bicho, quase peludo,
Com sumo de lima amarga e cravinho,
Para me deglutir com quase tudo
O que encontrava de dia no caminho,
e que à noite mantinha guardado.

E nesses breves segundos eternos
Eu era gerado, parido e consumido,
Lambido, mastigado por bichos ternos,
Defecado por vontade e esquecido,
após dar vida a quem me consome.

E nesses breves segundos me recordo
Que, ainda que tenha sido inferiorizado,
Se não sou eu que ao bicho mordo
E consumo o seu corpo alienado,
sirvo, ao menos, para lhe matar a fome.

Bruno Torrão

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Poema CCXXII - Sobre a tua fisiologia

Digo-te eu que és tecido engomado
Num bosque estendido, ali ao vento
Que ruge forte, destemido, encorajado
A alisar-te a pele de que sou sedento.

Digo-te eu que és palavra esdrúxula
Agudizante de cada sentido morfológico
E síntese de todos os pecados, como a gula
Que me cria a fome de ti. É lógico!

Digo-te eu que não és sequer telhado
Talhado para do meu lar ser cobertura,
Mas sim estrutura e cabouco alicerçado
Sobre um chão arriscado à tremura.

E digo-te eu, sem mais disto haver fim,
Que na competência ideal tudo completas,
Como os números das horas que passas em mim
E no meu pensamento te cravas como setas!

Bruno Torrão