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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Poema CCXXVI - Varanda


Espreita duma varanda, assomada,
Como quem espera o carteiro chegar
A horas tardias para jantar, coitada,
A minha esperança farta de esperar.

Aguarda encostada, vergada sobre a varanda
De olhos postos na estrada e na calçada,
Sem pestanejar a vista, que já anda,
Obviamente, de chorar cansada!

Assomada, vergada, cansada, volta p’ra casa,
Entristecida e já sem qualquer esperança.
Desesperada se deita no chão da casa
Que habita sozinha desde criança.

E assim se permanece no chão, estendida,
Presa ao soalho como uma pesada prensa.
O desespero deixou-a para sempre rendida
À solidão em que a esperança se condensa.

Bruno Torrão

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Poema CXLIV - Incertezas

Um cigarro e música calma.
Uma vela em cima da mesa.
Tormentas bailam-me a alma.
Na cabeça reina a incerteza.

Lá fora a chuva comanda.
Cá dentro o quarto arrefece.
O batimento cardíaco abranda.
O futuro, esse, se esquece.

O pensamento sinto-o quebrado.
A noite parece ser tão escura.
As recordações levam-me ao passado.
A lua, agora, nem parece tão pura.

A minha vida desfaz-se em pó.
Agora o ar é ofegante de tão quente.
Gosto assim, de estar tão só,
Mas não longe de toda a gente.

Bruno Torrão
27 Fev. 05

sexta-feira, 5 de março de 2010

Poema CXL - As Pessoas

Confundem-me as pessoas! Tanto, tanto!
Lançam-me em medo, devaneio e pranto...
Por isso delas me escondo e tanto fujo,
Para qualquer lugar, deslugar, mundo sujo...

Invento sítios. Descubro lugares indescobertos.
Alcanço estrelas, planetas, universos abertos,
Para me infiltrar e delas me esconder. Quero!
Quero ser sozinho no meu mundo que impero...

Mas elas não me deixam só...
Elas não me deixam só.
Mas elas não me deixam só!
Elas não me deixam só...

Bruno Torrão
20 Fev. 05



Com este poema iniciei o meu quinto livro, terceiro e último da série Magnotico onde, em algumas composições - quiçá na sua maioria - se denota a fase anti-social e de auto-estima retráctil, com referências aos ambientes negros que já se haviam lido nas compilações Expiração e em composições pontuais de Letrodependência.
Este poema foi ainda musicado por Tiago Videira, não se encontrando, no entanto, à disposição do público.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Poema CXXXVII - Brinca, Alegria!

Brinca nesta rua, Alegria,
Enquanto to permite a idade!
Pois daqui a uns anos, mais tarde,
Não mais brincarás, Alegria...

Brinca agora, pequena Alegria,
Como brinca qualquer criança
Brotando dos olhos esperança,
Fantasia, emoção e alegria...

Só agora podes brincar, Alegria,
Aproveita agora tamanha virtude!
Pois com o crescer tanto se ilude
E na vida só se perde é alegria...

Bruno Torrão
19 Fev.'05



Este foi, como podem verificar pelos tag, mais um poema no qual utilizei a táctica Three Words Poetry.
Ainda hoje me espanto, comigo, como tive tamanha agilidade nesses tempos em fazê-lo... E hoje nem tampouca agilidade tenho - quase - sequer, para escrever...!

sábado, 8 de agosto de 2009

Poema CXXVIII - Enjoado

Mata-me aos poucos, a rotina.
A sabedoria triste da vida cronometrada.
Vida seguida, sabida e farta. Enjoada!
Segue-se a estrada em que cada esquina

Se assemelha a outras tantas.
Estranho é, podera, quem as fez,
Por certo envolvido em mantas,
Decadência, insanidade e embriaguez.

Ruas tortas onde me assombro tanto.
Ruas estranhas onde me resguardo
E tão, estupidamente, o meu pranto
Afogo, mato... E deixo enterrado.

Bruno Torrão
28 Jan.’05

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Poema CXV - Eloquência

Sou a água e o fogo num só.
Sou o céu e a terra em união.
Sou metade de tudo, e o seu composto,
Uso a honestidade e a presunção,

A fraqueza e a grandiosidade.
O princípio e a extremidade.
Tudo o que descrevo é o certo
E jamais o seu oposto.

Tu, eloquência, que tanto me elevas,
Tão bem me rebaixas, até às trevas,
Escuro mundo onde não habito.
Fujo com medo. Choro. Grito!

Parto para lugar incerto.
Não sou eu. Eu não existo!
A perfeição lançou-me fora daqui...
Longe do mundo que mal descobri.

Bruno Torrão
27 Nov.'04

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Poema CVIII - Sem corpo

Estou farto de ser quem sou!
Farto de quem me rodeia e ilude...
Farto da vida. Se é vida quem apelidou,
Morto está... É fóssil ou já crude.

Cruel vida que se afasta
Da morte certa e infeliz.
Como se fosse a má madrasta
Castigando a princesa petiz.

Estou farto de ser quem fui!
Alguém que viu sombras numa gruta
Imaginando um mundo ideal,
Quando lá fora a vida é puta!

É a morte certa que se aproxima!
É a decadência que tarda a partir...
E vou estando... simplesmente lamentando,
“Morte que não chegas, faz-me sorrir!”.

Bruno Torrão
30 Ago.’04

terça-feira, 17 de março de 2009

Poema CVI - Anoitece

A Eva Redondo

Anoitece...
Deixa anoitecer devagar!
Que quanto menos tempo tiver a noite
Menos tempo tenho para me amargurar...

Anoiteceu...
Foi tão impetuoso o escurecer
Que a imensidão do escuro
Me deixou enlouquecer...

Enlouqueci!
Agora que a noite chegou
E a loucura atracou
Nada posso fazer senão amanhecer.

Não amanhece... não acordo.
Quem me diz se ainda estou louco?
Amanhece... não acordei...
Talvez tenha morrido um pouco.

Bruno Torrão
20 Mai.'04



Não! A Evinha não andava com ideias suicidas!
Este poema foi-lhe dedicado por uma simples razão. É um dos poemas onde usei a técnica a que apelidei de "Three Words Poetry" onde construo um poema a partir de três palavras soltas e, neste caso, dadas pela minha ex-formadora de Português, Eva Redondo, de quem, inclusivamente, tenho um montão de saudades... :)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Poema XCVII - Indiferente

Comprei um livro de magia,
Aprendi a lançar mau-olhado.
Atei três cordas à tua fotografia,
Para te manter afastado.

Jurei por maior segredo
Nunca mais pensar em ti,
Ficarás num baú guardado,
Ao mar futuramente lançado,
Do qual as chaves eu perdi!

Hoje recordo-te com tristeza
Mas em força passo-te à frente.
Não quero mais saber da tua beleza!
Hoje, graças a ti, passas-me indiferente!

Bruno Torrão
18 Jan. '04

domingo, 21 de dezembro de 2008

Poema LXXXVII - Olha o destino

Olha para trás amor...
Vê como o destino te trepassou.
Repara como as cinzas fazem do calor
Parecer gelo que não quer ceder
Ao olhar gélido dum Deus que não sou.

Olha para nós amor...
Analisa cada passo, todos os dias...
Interioriza... memoriza o furor
Com que rapidamente nos amámos...
E hoje... amor, renasce o que querias...

Ou imaginaste...
Olha para o futuro... paixão.
Vês o que criaste?
Não culpes o teu nascer pelo que vives
Porque só ele faz viver meu coração.

Bruno Torrão
17 Mar. '03

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Poema LXXXV - Sem título

@ wireless

A noite cai repentina...
Por fora das janelas ouvem-se gritos.
Mochos... sábias aves de rapina
Saboreiam doces moranguitos

Alcoólicos bailam como uma cortina
Levada na paz do vento.
A noite, o sossego, a neblina
Rompidas pela alegria das divas,

Rasteja, obediente,
Perante a euforia das ditas.
O sol nasce, timidamente,
E manda todas para a camita!

Bruno Torrão
03 Mar. '04

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Poema LXXXII - Tuas prendas

Joguei-as fora do telhado
Tuas prendas do ano passado...
Tuas declamações de amor,
Tuas letras de canções de dor...

Dizias que não me tinhas,
Dizias estar distante... a milhas
Juravas amor eterno...

E hoje enterro
Nas roseiras do meu quintal
As prendas que me deste no Natal...

E hoje enterro...
Sem piedade alguma enterro,
As prendas em pó que me deste
Das juras que um dia não fizeste...

Bruno Torrão
24 Fev. 03



Este foi a primeira composição poética onde apliquei a técnica de evolução em prol da criatividade à qual chamei Three Words Poetry, na qual consite em costruir um poema lógico a partir de três vocábulos sem co-ligação frásica.

Ainda me tentei recordar de quais foram as utilizadas neste poema, mas sem sucesso...