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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Barrote



Barrote

Sinto estranho o corpo. Vazio!
Longe de mim. Desesperado.
Como algo que corre desalmado
Em busca dum lugar sombrio,

Deslocado, sem se encontrar.
Sinto vazia a alma. Estranha!
Longe do corpo que a emaranha
Em estranhas teias de sufocar.

Aperta-me o peito. Sufoca!
Vida por morte. Troca por troca.
Levo a sina a jogar-me o destino,

E, tão rápido, meu corpo cristalino
De pedras preciosas e sal puro,
Afoga-se no mar como barrote duro!

Bruno Torrão

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Poema CLXIII - Dama

Albergas em ti o mundo num sonho
E a voz da vida, inigualável de Portugal!
Matas a angústia do universo medonho,
Espalhada por esse mundo nosso sem igual!

És o expoente máximo da nossa saudade,
Amor traído em matutino alvorecer.
Cantas em cada canto a nossa verdade
Que em ti nunca o acreditar se fez querer...

És o gomo mais doce do nosso citrino,
Que em altos pomares se viu aflorar.
Escondes no teu olhar, gelado, matutino,
O gume da faca com que nos queres matar!

És a letra mais carregada de presença
Que num velho livro guarda a nossa vida,
Esperando a cada página a recompensa
De um olhar mais pálido que a tua partida!

A ti te escolho, dama da honra mais escura,
Para pregar pelos altares que tenho pisado.
Acolhe-me a alma que, ligada a ti perdura,
Num infinito sonho que jamais é alcançado!

Bruno Torrão
09 Out. 05

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Poema CLXII - Outeiro

Inspira! Sentes ainda o cheiro
Emanado desta suja folha,
Escrita numa rua de outeiro
Eleito por nossa escolha,

A passar noites em céu lento
Aberto e, até, reluzente?
Aqui, acelerámos o tempo
Num Inverno ainda quente,

Escaldado por nossos sentimentos.
Foram curtos e longos momentos
Passados a olhar um rio

Que a névoa, outrora, tapara!
E os beijos que larguei na tua cara
Sinto-os hoje, suando, como frio.

Bruno Torrão
05 Out. 05

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Poema CLXI - Portões largos

Talvez seja tarde – demasiado! -
Quando a morte abarca cedo,
E vem trazendo em segredo
A crua felicidade a seu lado.

Talvez seja cedo – demasiado cedo! –
Ver esvair-me entre torrões
Sulcados duma terra onde pões
Arduamente teu corpo azedo.

Tarde. Cedo. Cedro. Cipreste...
Vida de vida de cemitério!
Portões largos; ocultem o mistério
Da minha dura vida agreste.

Abertos, altos portões largos,
Confidentes dest’alma enterrada,
Mantenham por eterno afastada
Tal alma que em mim fez estragos.

E que siga por ela seu caminho.
Cedo. Tarde. Eternamente nunca!
Prossiga ele nessa espelunca
Efémero corpo – e sozinho!

Bruno Torrão
29 Set. 05

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poema CLX - Ode do Oriente

Lisboa viu nascer
no seu bairro oriental
Aquilo que devia ser
o novo mundo em Portugal!
A exposição do velho mundo,
que os lusos desbrenharam,
Nasceu de um parque imundo
que os novos ignoraram.
Velhas latas enferrujadas
e lixeiras industriais,
Deram espaço a moradas
às novas tias de Cascais!
Entre lodo e muita lama,
batráquio e insecto,
Fez-se o Centro Vasco da Gama
de que a SONAE tem muito afecto!
Já se namora à beira-rio
e na Doca dos Olivais.
E os casais com o cio
nos Jardins da Água gritam por mais!
Projectou-se o Oceanário,
regalia para as lontras.
Aos visitantes enche o imaginário
e de souvenirs as montras.
Já o teleférico é um encanto,
que mesmo caro dá p’r’andar,
E é como qualquer canto
para o amor se consumar!
O Pavilhão Atlântico é a regalia
para os olhos de quem o visita,
Mas foi, na sua escadaria
que eu, assaltado, fiquei sem guita...
Os Jardins Garcia de Orta
com os bares que o ladeiam,
Toda a gente anda torta
devido aos cheiros que lá vagueiam,
Seja do Tejo que ele surja,
que em certos dias até é fixe,
Porém o odor da água suja
não anula o do haxixe!

Bruno Torrão
26 Set. 05



Este foi o segundo poema onde, num conjunto de Odes, decidira satirizar alguns bairros de Lisboa, tendo sido o primeiro o já aqui apresentado Ode à Decadência, que cai sobre o Bairro Alto.

sábado, 30 de outubro de 2010

Poema CLIX - Cravo de Rua

Cheira a cravos, esta rua...
Cheira a cravos, só cravos.
Vermelhos, como queria dar-vos,
Tais cravos cheirosos desta rua,
Assomados, tímidos, à janela
Lançando seu perfume p’la viela.

Bruno Torrão
21 Ago. 05



Tenho uma paixão imensa por este poema por ter sido escrito na íntegra - e por essa razão tão curto - enquanto caminhava, numa manhã de Verão, pela Avenida abaixo em direcção à estação de comboios.
Acaba por ser um pouco a representação da minha libertinagem no que tocava (sim, no passado) à prontidão para escrever - No matter what, no matter where! (Não interessa o quê, não interessa onde!) - e que nos dias que têm corrido tenho sentido tanta e tanta falta...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Poema CLVIII - Se a noite fosse fria

(Adaptação de “Se ao menos houvesse um dia”, João Monge)

Se a noite fosse fria
Perto de ti me aquecia
Entre lençóis de flanela.
E depois de cada abraço,
Entrelaçássemos num laço,
Como num quadro sem tela.

Se a noite fosse fria
E expirássemos euforia
Entre os auges que desejas,
E depois do uníssono
Nos embrenhássemos num sono,
Na calma vida que latejas.

Se enquanto amanhece,
E lá fora o tempo aquece
Num presságio de saudade,
Nos lançamos em rituais,
Os corpos pedindo mais,
Numa eterna afinidade.

Se ao menos a sonhar
Tudo pudesse realizar
Com a força que me agarras,
Este poema será feito
Para, por ti, ser eleito
A cantar em noites de farras!

Bruno Torrão
21 Ago. 05



Este poema foi escrito com o intuito de ser enviado para uma editora discográfica, tendo em conta que é facilmente aplicado à composição musical do tradicional Fado Três Bairros, porém, até hoje, não tem passado da gaveta por falta da iniciativa do próprio autor!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Poema CLVII - Barrote

Sinto estranho o corpo. Vazio!
Longe de mim. Desesperado.
Como algo que corre desalmado
Em busca dum lugar sombrio,

Deslocado, sem se encontrar.
Sinto vazia a alma. Estranha!
Longe do corpo que a emaranha
Em estranhas teias de sufocar.

Aperta-me o peito. Sufoca!
Vida por morte. Troca por troca.
Levo a sina a jogar-me o destino,

E, tão rápido, meu corpo cristalino
De pedras preciosas e sal puro,
Afoga-se no mar como barrote duro!

Bruno Torrão
09 Ago. 05

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Poema CLVI - Suavemente

Era dia! Suavemente acabado de nascer
Como o amor transpirado que nós,
Até ao nascer do dia, quisemos fazer.
Era dia! Suavemente esculpido pelo Sol,
Guarnecido de nuvens suaves e sós,
Que se embrenham entre elas, como nós no lençol.

Era luz! Uma luz que tão forte
Nos cega a vista vidrada de amor.
Era a luz! Que entre nós foi nascendo
E até hoje crescendo aumentando o calor.
Essa luz! Que nos guia p’ra norte
Aumentando a paixão que foi crescendo.

Bruno Torrão
12 Jul. 05

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Poema CLV - Loucura

@ H.J.M.

Louco! Louco! Louco!
De loucura quero mais!
Porque de loucura temos um pouco,
E a mim mais não é demais!

Quero ser louco! Insano!
Doentio senhor da lucidez!
Doente, louco, santo profano,
Que se enlouquece de uma só vez!

Perco-me em dispersões...
Sozinho me converso. E converso!
Já que os loucos são sabichões
Que sabem mais que o controverso,

Que na loucura dos outros procura
A invalidez dessas ideias!
Quero ser louco, senhor da loucura,
Por completo! Não louco por medidas meias!

Bruno Torrão
05 Jun. 05

sábado, 31 de julho de 2010

Poema CLIV - Ao muro

Miro a fuga da vida, para trás,
Como uma estrada que se finda,
Já corrida, que me traz
A lembrança em que perduram ainda

Pedaços da tua figura, sozinha,
Esquartilhada num chão escuro.
Esqueço o resto. Tudo. A minha,
Pobre coitada, apenas lanço ao muro,

Imponente, forte e deslavado,
Na ânsia que tenho de me quebrar.
Sinto-me perdido, preso, apanhado...
Das ideias. Da ideias de me acabar.

Bruno Torrão
30 Maio 05

terça-feira, 27 de julho de 2010

Poema CLIII - Dor

Corpo vivo, corpo estranho,
Dor maior que todo o tamanho.
Dói mais a dor da vida vivida,
Que a dor da eterna despedida,

Que sempre que vem, é da hora.
Não como aquela que trago agora,
Que é esta dor de vida vivida
Mais dolente que a eterna despedida.

Habita em mim tal dor sofrida,
Dor maior que é sempre seguida.
Assim é a dor de vida vivida
Mais mortal que a da eterna despedida.

Sofreguidão que meu ser alcança,
E para a eterna despedida me lança,
Por ser maior a dor da vida vivida.
Mais sofrida que a da eterna despedida...

Bruno Torrão
27 Mai. 05

sábado, 24 de julho de 2010

Poema CLII - Latitude

Nunca te tive
Mas já te sinto perdido.
Cada espelho que olho
Vejo o mundo partido.

Viajo na loucura
Onde não tenho retorno.
Vou chorando a vida
Emerso em transtorno.

Provoco a amargura
Ao te trazer na lembrança.
Recordo o teu sorriso
Para não perder a esperança.

Ocupo a minha cama
Como um corpo já morto.
Revejo-me num barco
Procurando o teu porto

Que já perdeu o Norte,
Tão perto do farol.
Procuro-te na noite,
Em vão, porque és Sol.

Um Sol que tanto brilha
Num outro lado do Mundo.
Por mais que a Terra gire
E rode num só segundo,

A tua latitude
Não coincide com a minha.
E a nossa longitude,
Essa, será sempre sozinha.

Bruno Torrão
23 Maio 05

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Poema CLI - Ergo

Jamais poderá alguém definir,
Tão melhor que eu, o significado
Duma palavra tão difícil de sentir,
Pelos outros de sentido tão errado.

Quem com ela vive, julgam louco,
Por adorá-la tão majestosamente.
Solidão, vive-se tanto e tampouco,
Num imenso mundo dolente...

Vivo eu nesse efémero mundo,
Mundano, imundo e insensato,
Mas feliz por ser único e profundo,
Espelho de mim e do meu abstracto.

Solitário, a mim mesmo me declaro,
Protegido pelas muralhas do meu ser.
Ergo, em mim, a força que amparo
Dum mundo que não me sabe entender.

Bruno Torrão
17 Abr. 05

domingo, 18 de julho de 2010

Poema CL - Mais forte que ele

Estou bem tão só... Esquecido.
Num quarto onde o sol, proibido,
Não entra por mais destemido
Que seja. Sou mais forte que ele!

Vive só, num mundo astral.
Atrai a si todo o que se move.
Num raio solar aquece o mal
Que na terra de si se comove.

Vivo só, num mundo estranho.
Atraio a mim o que não quero.
Num raio de sonhos, tudo apanho.
Luz, cor, tristeza e desespero.

Estou bem tão só... Perdido.
Num quarto, onde ainda proibido,
O sol não ousa em ter-me aquecido
O mal. Porque sou mais forte que ele!

Bruno Torrão
16 Abr. 05

sábado, 17 de julho de 2010

Poema CXLIX - Estranho

Estranho é voltar a adormecer
Com um sorriso nos lábios desenhado.
Estranho é voltar a reviver
Sentimentos que julguei ser do passado.

Estranho é voltar a acordar
Com o pensamento em ti colado.
Estranho é voltar a suspirar
Como qualquer homem apaixonado.

Estranho seria não te ter paixão...
Não pensar em ti, não te gostar!
Não te guardar, a ti, no coração,
Não te querer. Não te adorar!

Por agora tanto te adorar ando estranho!
Sinto sentimentos que julgava findados...
Mas renasceram, por ti, em grande tamanho,
Que neste tempo, para ti, estiveram guardados!

Bruno Torrão
14 Mar. 05

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Poema CXLVIII - Maior que eu

Sinto o coração maior que o peito!
Sinto-me mais que tudo... tão feliz,
Tão tudo, maior que eu, tão satisfeito!
Sinto-te tão perto, como sempre quis!

Bruno Torrão
11 Mar. 05

sábado, 10 de julho de 2010

Poema CXLVII - Só por ti

Derretem-se meus olhos por ti,
Como se derretem velas ao calor.
Por ti derretia os pólos, só por ti,
Por de ti ter tanto e tanto amor.

Prendem-se meus olhos por ti,
Como se prendem âncoras ao mar.
Por ti prendia a lua, só por ti,
Por tanto e tanto adorares o luar.

Descansam meus olhos por ti,
Como descansam as estrelas no céu.
Por ti descansava, eterno, só por ti,
Num tão grande céu só teu e meu!

Bruno Torrão
10 Mar. 05

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Poema CXLVI - Vertigens

Estas mentes andam doentes
E eu delas me vou rindo!
Tanto me rio eu, entre dentes,
Enquanto de mim elas vão fugindo!

A calamidade, minha gente, aí está!
Vem chegando, passo a passo,
E por mais que fujam, não dá...
Ela agarrar-vos-à em pouco espaço!

Tenho pena de vós... meus queridos,
Que tanto me subjugaram nesta vida!
Chamaram-me louco, pobres enraivecidos,
Julgando que pobre alma seria vencida!

Vejo-vos eu, agora, caírem a pique,
Em altitude tal só vertiginosa de pensar.
Arrepia-me a pele num curto click.
E o vosso mundo finda tão devagar...

Bruno Torrão
07 Mar. 05

terça-feira, 6 de julho de 2010

Poema CXLV - Nas colheres

São as pessoas assemelhadas
Às colheres que tenho no faqueiro;
Umas são brilhantes. Prateadas!
Outras de plástico. Do barateiro.

Quando olho para elas, que vejo,
O côncavo interior desfalcado,
Lembro-me de mim, e nelas revejo,
O meu interior todo alterado.

Porém, miro então o outro lado,
E atento, então, o convexo exterior.
Tudo normal! No sítio bem colocado,
Faz lembrar um mundo de esplendor!

No entanto, o mais importante,
E nem por muitos lembrado,
É que o côncavo mais perturbante,
É, dos dois, o mais bem desenhado.

Pois tão bem suporta no seu pedaço
Os mais gélidos cubos de gelo,
Como amontoa em tão pouco espaço
Um aninhado infinito de quente pelo.

Bruno Torrão
04 Mar. 05