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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Na mesa cama



Na mesa cama

Fumo nas noites o luar azedo
E o brilho das estrelas opaco e baço.
Encharco os pulmões de odor a medo
E grito no vácuo sentido em que abraço

As brasas num chão incandescente
E, no ar, as cinzas em pó asfixiante.
Já vejo o mundo arder lentamente
Por dentro duma bolha flutuante.

E à mesa exponho o corpo aberto.
Estilhaçada em cacos a minha mente!
Pego no vazio ao meu redor e aperto
Contra o nada que aqui se sente

E na minha cama aqui se sentam
As armas que ergo das batalhas falidas.
Só mesmo elas agora se contentam
Por me ver sangrar nas minhas feridas.

Assim me adormeço sob lençóis de pregos
Que cumprem em regra a lei da gravidade.
Dos sentidos me restam os olhos cegos
Cujas lágrimas tomaram em insanidade!

Bruno Torrão

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tema para um malmequer desfolhado



Tema para um malmequer desfolhado

Há sob o céu desta cidade
Um lume brando ainda em chama
Em fumo ocre lança saudade
E no meu corpo tudo se inflama
Dos pés às mãos sou claridade
No peito ardo como quem ama
Trago na vista a imensidade
E o sentimento de quem se engana
Ardo pela vida em liberdade
Que te quer bem
E a mim também.

Somos dois olhos de criança
Sem cor à vista pela manhã
Da transparência que aqui dança
Somos da cor duma romã
Aberta ao sol vermelho-cansa
Unidos numa ideia vã
“Quem une é o tempo e a esperança
“A quem tratámos por irmã”
Somos um malmequer que aqui balança
Que me quer bem
E a ti também.

Bruno Torrão

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Pomar



Pomar

Deixámos que nos envelhecesse na pele
A carícia de outras peles perdidas,
Que do tempo ou da memória se repele
E teimamos em manter esquecida

Mesmo a saber que a mesma se finca,
Em marcas no corpo ou na singular atitude,
Nas palavras que proferimos quando se brinca
Com o intuito de esquecer ou que se mude

A forma de olharmos diferente um lugar,
De ouvir de outra maneira uma canção
Ou até de saborear cada maçã dum pomar
Que forçamos a podar no nosso coração.

Bruno Torrão