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Este blog nunca se irá encontrar escrito ao abrigo do (des)Acordo Ortográfico de 1990!

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Reconstruo

Sento frente ao tempo e, com os dentes,
Desfio-me da pele que me prende ao espaço
Em que o meu corpo, por entre torrentes,
Se desflora como flores presas ao regaço

Duma imaculada virgem ainda estimada em feto.
Solto vagarosamente cada célula ainda viva
Presa à carne putrefacta onde injecto
A neura, químico fluido da cabeça-ogiva,

Ponto de partida para a loucura que me afecta.
Presa aos dentes vem a pele e, vermelha ainda,
A carne-raiva que se solta que nem veloz seta,
Preste a atingir quem neste espaço se finda.

Já desfeito do corpo e do tempo agora liberto,
Volto a ser intuito de um embrião futuro
Que, por mais que desvenda que seja incerto,
Nada me fará perder tempo, mesmo inseguro.

Quando do nada me reconstruo e me lanço
Todo o progresso é sinal duma grã vitória,
Ainda que seja bamba a corda onde balanço
Não há trapézio que não me sustenta a glória.

E volto aos poucos ao regaço de virgem feto
Onde pousei as minhas pétalas de pele.
Sou agora construído em forte concreto
E imaculado como uma nova folha de papel.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Canal

Passo a vida a viajar dentro do nada.
A cada dia que passa menos desconheço
O que entre o que era e sou na estrada
Da vida é tudo menos começo.

Sou moribundo nas coisas que tenho
E naquilo que não possuo sou reflexo.
Do que sempre quis ser em tamanho
Ou forma disforme em que me convexo

Faço bagagem e trago-a para perto.
Se nesta bagagem trago uma rama despida
Daquilo a que ninguém presta afecto,
Desfaço-me do resto e presto-lhe a vida.

É então que planto num canteiro isolado
Daqueles que ao mundo só cinza deram,
E germino as ramas que tenho coleccionado
Entre as mais amargas viagens que eram

Somente estragos do meu ser inconsciente.
Se as ramas não dão folhas, não culpo a terra,
Antes o ar que mais é feito de toda a gente
Que ao redor do que se isola se encerra.

É, então, que desce como pano de fundo
Já humedecido e fértil de orvalho matinal
E das águas que movi, pensando no mundo,
E defino como inútil o esforço de ser canal

Por onde correm águas soltas e despertas.
Se antes quis que fossem turbilhões de revolta,
Hoje apenas as amanso por valas abertas
Sem que recordem do caminho de volta.

sábado, 26 de março de 2016

Prata


Chego aqui de veias soltas e desvendo
Que o tempo já partira sem permissão.
Neste espelho onde eu-reflexo me suspendo
Em tempo e espaço que trago num corpo vão,

Sossego os ânimos que trazia, então,
Por rever que o espelho é o que eu entendo
Do todo que à minha volta é solução,
Quebrada pela questão que, não querendo,

Lanço em forças à ideia de descrente.
E da persistência por resposta nata,
Quebro o espelho de energia corrente

E desfaço os cacos e retiro a prata
Como quem o faz em modo inconsciente.
Do futuro vejo que trago o presente.

sábado, 12 de março de 2016

Prematura


Chamem a ambulância, depressa!
Jaz aqui no chão a definhar
A ideia que não se expressa,
Contorcendo-se em falta de ar!

Largou a bolsa uns metros atrás
E viram-na correr direito ao mar,
Passou ao largo das pedras e zás!
Esbracejou sem saber nadar!

Foram tirá-la, por entre as ondas,
Bravas respostas que sabiam nadar,
Com bóias laranjas e redondas
Esperando que fizesse suscitar

Ideias novas que pudessem
De forma alguma revigorar
E quem sabe, os sais fizessem
Novas ideias dali soltar.

Chamem depressa a ambulância
Que isto está pela hora da morte!
Se antes vingava abundância
Hoje não se prevê tal sorte!

A água oxidou-lhe a ânsia
Que dentro da mente fervilhava
Quando, com a dor da distância,
Uma sopa de letras amanhava

E na própria água, com elegância,
Lhe misturava todos os legumes
Com um certo sabor a dissonância
Que a ideia é faca de dois gumes.

E ali jaz, na praia, com petulância,
A ideia que apenas quis loucura.
Morre na praia, como na infância,
Choram-lhe a vida prematura.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Perfura


Não me importo que me não reconheçam. 
Eu nunca fui o que soube que não era, 
Sabendo ainda sempre ser o que foram 
Aquelas coisas que me faziam ser. 
Aquilo que doutros em mim fui, eu jamais quisera 
E de tudo aquilo que propunham não ser, 
Sempre o fui, é certo, sem causar atrito. 
Sempre tudo isso achei bonito 
E de tudo fiz exacerbada quimera 
Por ser como um não tudo daquilo que era.

E agora, sou das terras em rasgos abertas, 
Por onde corro como solta ribanceira, 
Às pedras de outros que foram ofertas 
Para de mim serem fronteira, 
As uso como caminho onde corro solto! 
E desse caminho que desconheço, não volto 
A ser corpo ou qualquer outro estado.  
Sou tudo, em exacto momento mas, não parado! 

E agora que caminho sem obstáculo ou paragem, 
Desfaço as areias que não me movem a parte alguma 
Senão para onde as consequências agem
Como prémios exímios da coragem, em suma,
Dos actos que por cobardia quis desfeitos na proa
Do navio que abandonei ao largo da foz.
Que o que fiz, até então, de intenção boa,
À vista de todos foi de atitude atroz.

Desconheço as formas com que desenhavam,
Nas praias do que todos fomos, em união furtiva,
Com estacas cravadas, enquanto sangravam
E tingiam o nada com o fumo que esquiva
Dos corpos transcendentes que não haviam.
Se éramos todos sonhos, tal forma desconhecia.
Sei apenas que respirámos das marés que vinham e iam
Por entre as ternas auroras que eu próprio fornecia.

E por fim, despertámos em desunião composta
Por entre o pestanejar insistente do acordar,
Como a frágil água nascente, perfura disposta
As pedras que me foram dadas para murar,
Na ideia de se tornar mais forte, após tanto caminho,
Desvios e vales por entre cada imponente serra,
E já rio saber chegar à foz, quase que sozinho,
E reencontrar o sentido de ser mar para a Terra.

Bruno Torrão